sexta-feira, dezembro 21, 2007

esperando 1

não me entendam mal: eu gosto de viajar. tanto que, apesar de ter ficado tão pouco tempo no Rio de Janeiro, como relatado ontem, aproveitei cada momento de lá, cada rua, cada conversa, cada gosto diluído na boca, cada paisagem. mas viajar para Deprelândia não é viajar: é submeter-se a uma tortura infinita.

eu sou masoquista e passo o recibo disso nas escolhas que faço, mas tortura é outra coisa.

isso dito e isso posto, viajar para Deprelândia é preciso. impreciso é saber se haverá viagem: chego no aeroporto na hora certa e a fila dobra quadras, superando fisicamente o limite da minha paciência. nenhuma mala para despachar: apenas uma mochila com roupas e uma sacola da Ellus onde escondo meu computador.

porque, já que é pra ir, eu quero voltar.

mas existem pessoas lá que precisam ser visitadas. minha família, meus amigos. confesso, com um pouco de tristeza, que me sinto um estranho no meio deles. eu os amo, eles me amam. mas não temos o que dizer uns aos outros, ou, se temos, é muito pouco. minha vida se transportou para cá e, sem fazer juízo de valor sobre isso, é apenas o que aconteceu.

nessas horas eu olho para trás e aceno para a "vida" que tinha por lá. ela vai ficando cada vez mais longínqua, sem que eu tenha que sair do lugar para isso. poderia até me perguntar se adiantaria voltar para lá, se as coisas voltariam. mas elas não têm que voltar, a vida só anda em uma direção.

de volta ao aeroporto, a cena tradicional: crianças choram, débeis mentais falam alto, a Infraero informa que é proibido fumar (eles só servem para patrulhar os pobres fumantes), eu penso em paisagens que ainda não conheço, pessoas que estão por aí e cuja existência me é alheia até agora: se não é para ficar aqui, tudo bem. mas também não quero ir para onde me querem. é o masoquismo do meu jeito, afinal de contas a vida é minha.

faço o check-in, corro com a sacola pesada em mãos, desço. o avião está atrasado trinta minutos, e agora faltam apenas doze. quando faltam quatro, o terminal computadorizado informa novo atraso, de meia hora. mas apenas seis minutos dessa meia hora se passam até que somos convocados pelo sistema de som, e informados de que o pára-brisa do avião trincou-se e não será possível chegar até Deprelândia.

eu não quero acreditar nisso.

tento facilitar as coisas, pego um voucher para jantar e ligo para o Felipe, que solicitamente vai com a Gabriela me buscar no aeroporto. a essa altura, nem a memória das pessoas em Deprelândia faz com que minha vontade de viajar deixe de se esvair, como as bagagens extraviadas de toda essa gente.

em casa, com preguiça de desfazer a mala, preguiça de viajar, preguiça de pensar em qualquer coisa, lembro que a companhia aérea prometeu uma solução até as doze horas de amanhã. eu não quero viajar para Deprelândia, eu quero ir para as Maldivas com você, meu amor.

mas você, meu amor, assim como as pessoas que tenho de visitar, está ficando cada vez mais distante. e eu, no navio, só posso lhe acenar do convés. mas quando os meses que nos separam virarem décadas, e a sua doce lembrança for apenas uma doce lembrança desses mares tão longínquos, eu vou me recolher para a cabine do navio e pensar em você enquanto o barco ruma, perdido por nenhuma rota, até que a gasolina se acabe. porque viajar de avião, meu amor, não vai te colocar do lado de fora das esteiras, esperando até que eu pegue minha mala e corra pros teus braços.

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